Tratamentos

Espondilolistese

A saúde da nossa coluna é o que nos permite manter a postura, caminhar e realizar as atividades mais simples do cotidiano. No entanto, quando uma das unidades que compõe essa estrutura sai do lugar, surgem dúvidas e preocupações. Se você recebeu o diagnóstico de espondilolistese ou está buscando entender dores persistentes na região lombar, este guia foi preparado para esclarecer os pontos fundamentais dessa condição.

Como cirurgião de coluna, vejo diariamente o impacto que o deslocamento vertebral tem na qualidade de vida. A boa notícia é que, com o diagnóstico correto e uma estratégia individualizada, é perfeitamente possível retomar o bem-estar e a mobilidade.

O que é Espondilolistese?

O termo espondilolistese deriva do grego spondylos (vértebra) e olisthesis (escorregamento). Na prática, ela ocorre quando uma vértebra desliza para frente (anterolistese) ou para trás (retrolistese) em relação à vértebra que está logo abaixo dela.

Esse movimento pode causar desde um desconforto leve até a compressão de raízes nervosas, resultando em dor irradiada para as pernas, formigamento e perda de força. A localização mais comum para esse fenômeno é na região lombar baixa, especificamente entre a quarta e a quinta vértebra lombar (L4-L5) ou entre a quinta lombar e a primeira sacral (L5-S1).

Tipos de espondilolistese: a classificação de Wiltse

 

Nem toda espondilolistese é igual. A causa do escorregamento é o que define o tipo da doença e, consequentemente, direciona o meu planejamento terapêutico. A classificação mais utilizada na medicina é a de Wiltse:

 

  1. Espondilolistese Ístmica (Tipo II)

É o tipo mais comum em crianças, adolescentes e atletas de alto impacto (como ginastas ou jogadores de futebol). Ela ocorre devido a uma falha ou fratura por estresse em uma pequena ponte óssea da vértebra chamada pars interarticularis. Essa pequena fissura (espondilólise) enfraquece a estrutura e permite que a vértebra deslize.

 

  1. Espondilolistese Degenerativa (Tipo III)

Diferente da ístmica, esta surge pelo processo natural de envelhecimento. Com o passar dos anos, o desgaste dos discos intervertebrais e das articulações facetárias (artrose) gera uma instabilidade. É mais prevalente em pacientes acima dos 60 anos, especialmente em mulheres, ocorrendo frequentemente no nível L4-L5.

  1. Espondilolistese Congênita ou Displásica (Tipo I)

Neste caso, o paciente já nasce com uma má formação nas facetas articulares da coluna. Essa alteração anatômica “facilita” o escorregamento, muitas vezes manifestando-se ainda na infância ou puberdade durante os estirões de crescimento.

  1. Espondilolistese Traumática (Tipo IV)

Ocorre após um evento súbito e de grande energia, como acidentes automobilísticos ou quedas graves. O impacto causa uma fratura em partes da vértebra que não a pars, levando ao deslocamento imediato.

  1. Espondilolistese Patológica (Tipo V)

Neste cenário, o escorregamento é secundário a uma doença sistêmica que enfraquece o osso, como osteoporose severa, tumores ósseos ou infecções.

  1. Pós-cirúrgica (Iatrogênica)

Pode ocorrer após procedimentos cirúrgicos em que houve a necessidade de remover grandes porções de estruturas de suporte da coluna para descompressão nervosa, resultando em instabilidade residual.

Sinais de alerta: quando se preocupar?

Muitos pacientes com espondilolistese de Grau I convivem anos sem saber da condição. No entanto, você deve buscar uma avaliação especializada se notar:

  • Dor lombar persistente: que piora ao ficar muito tempo de pé ou ao realizar movimentos de extensão (inclinar o tronco para trás).
  • Ciatalgia: Dor que irradia para as nádegas ou pernas.
  • Encurtamento dos músculos isquiotibiais: sensação de “pernas rígidas” ao tentar esticá-las.
  • Alteração na marcha: mudança no jeito de caminhar para compensar a dor ou instabilidade.
  • Sinais neurológicos: formigamento, dormência ou perda de força nos pés e pernas.

 

Como realizo o diagnóstico?

O diagnóstico começa com uma conversa detalhada sobre seus sintomas e um exame físico criterioso. Para confirmar o grau e o tipo de espondilolistese, utilizo exames de imagem:

  1. Radiografias (Raio-X): incluindo o “perfil dinâmico” (com flexão e extensão do tronco), fundamental para verificar se o escorregamento é instável.
  2. Ressonância magnética: essencial para avaliar se existe compressão de nervos ou danos aos discos.
  3. Tomografia computadorizada: o melhor exame para observar detalhes ósseos, especialmente na pesquisa de fraturas da pars interarticularis (tipo ístmico).

Opções de tratamento: do conservador ao cirúrgico

Meu compromisso é oferecer o tratamento mais adequado para a sua realidade, priorizando sempre a recuperação da função com o menor trauma possível.

Tratamento Conservador

Para a maioria dos casos, iniciamos com:

  • Repouso relativo: evitar atividades que sobrecarreguem a região lombar na fase aguda.
  • Fisioterapia especializada: focada em estabilização segmentar e fortalecimento do “cinturão” muscular natural do corpo.
  • Medicamentos: analgésicos e anti-inflamatórios para controle da dor.
  • Infiltrações e bloqueios: procedimentos minimamente invasivos que realizo para aliviar dores agudas e permitir que o paciente consiga evoluir na fisioterapia.

 

Tratamento cirúrgico

A cirurgia é indicada quando o tratamento clínico falha ou em graus elevados (III, IV e V). O objetivo é estabilizar a coluna e descomprimir os nervos.

  • Artrodese: é o procedimento de “fusão” entre as vértebras para impedir o movimento anormal.
  • Técnicas minimamente invasivas: sempre que possível, utilizo acessos menores, o que reduz o tempo de internação e acelera o retorno às atividades diárias.

Próximos passos

A espondilolistese não precisa ser uma sentença de dor crônica ou limitação. Com o avanço da medicina baseada em evidências e o uso de técnicas precisas, o objetivo principal é devolver a você a liberdade de movimento.

Se você sente dores nas costas que não melhoram ou possui um diagnóstico prévio de escorregamento vertebral, é fundamental uma avaliação especializada para monitorar a estabilidade da sua coluna. Deseja avaliar o seu caso ou tirar dúvidas sobre o seu tratamento?